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Associação
Profissional de Bibliotecários da Paraíba APBPB ano 1 n.2, João
Pessoa, julho de 2000.
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BIBLIOTECA: HISTÓRIA DE
UM PASSADO, AGONIA DO PRESENTE
Bernardina Freire
Professora do Deptº de Biblioteconomia
da UFPB
Folheando meus arquivos encontrei um pedaço de papel amarelado e amarrotado no qual estava escrito: "as bibliotecas são a memória da humanidade" da autoria de Jorge Luis Borges. Embora tenha me deparado outras vezes com essa mesma frase, surpreendi-me pensativa, o que me fez retornar ao passado. Em Alexandria reencontrei um homem chamado Erastóstenes, o qual foi apelidado por alguns invejosos da época de Beta (2ª letra do alfabeto) por julgarem-no o segundo melhor em tudo. Entretanto, no meu entender pareceu claro que em diferentes campos do conhecimento, Erastóstenes era mesmo "alfa". Foi astrônomo, historiador, geógrafo, matemático e, também bibliotecário-chefe, na biblioteca de Alexandria. Em um belo dia, ao ler um dos papiros do acervo, percebeu um relato curioso, que algo notável acontecia ao sul da cidade de Syena. No dia mais longo do ano, a sombra de uma coluna ou de uma vareta, encurtava com a proximidade do meio dia e, com o passar das horas, esse raio de sol deslizava por uma parede até atingir o centro de um profundo poço, o qual em outros dias não era iluminado. Então, precisamente, ao meio dia, as colunas não projetavam sombra, pois os raios solares atingiam o centro do poço iluminando diretamente a água. Era uma observação simples, se Erastóstenes não tivesse investigado e descoberto que na cidade de Alexandria, localizada a 800 Km ao norte de Syena, projetava-se uma sombra definida no mesmo dia e horário. O Bibliotecário perguntou a si mesmo porquê isso acontecia. Investigando o fato descobriu que a terra não era plana, e sim, curva. Assim, quanto maior a curvatura, maior a diferença entre as sombras. E, para descobrir isso contratou um homem para medi-la com passadas, fazendo ele mesmo os cálculos. Como ferramenta, Aristóstenes utilizou apenas a vareta, olhos, pés e o cérebro. Na verdade, tudo começou por uma simples consulta a um papiro armazenado naquela biblioteca. Ambiente este que pode tornar-se um ponto de encontro de personalidades, de grandes personalidades, como diria Rosa Beloto. Este espaço propicia aventura intelectual, sabedoria de mundo, como aconteceu com a Biblioteca de Alexandria, que durante anos de sua vida foi palco de encontros científicos e de genialidade, pois, além de Erastóstenes, encontramos o Astrônomo Hiparco, que mapeou as constelações e mediu o brilho das estrelas; Euclides, que sistematizou a geometria; Dionísio de Tracia com os elementos do discurso (substantivo, verbo etc.); Herófilo, filósofo que considerou o cérebro o sediador da inteligência humana e não o coração; Ptolomeu, que compilou a pseudociência da astrologia, numa visão geocêntrica que fora aceita por mais de 1500 anos. Assim, a biblioteca ia se colocando como um lugar de possíveis encontros, chegando a abrigar um instituto de pesquisa, no qual a este estava ligada a melhor mentes do antigo mundo, as quais viviam numa constante aventura intelectual. No bojo da Idade Média, como nos assegura Jacques Verger em sua obra Homens e Saber na Idade Média, as "bibliotecas do saber" , como eram denominadas pelos especialistas, abrigavam inúmeros intelectuais com suas coleções e textos diversos, incluindo aqui tratados de Direito, e alguns de Aristóteles entre outros. Local de encontro, mesmo que este tivesse como objetivo maior a preservação de algumas obras. Nisto, podemos dizer que ao longo do tempo acumulamos sistematicamente o saber, mesmo que perdas incomensuráveis tenham acontecido e (continuam acontecer) tal como a destruição da Biblioteca de Alexandria, fazendo com que muitos dos conhecimentos, já descobertos fossem sucumbidos a cinzas, tardando, sem dúvida alguma o encontro das nações. Por outro lado, a redescoberta de parte desse conhecimento tornou possível o Renascimento, influenciando nossa cultura. A Europa acordou de seu profundo sono quando foi embalada pelo saber contido nos livros. Ao longo da história, as bibliotecas têm contribuído para o avanço do conhecimento, apesar de muitas vezes, serem retaliadas como forma de impedir o avanço ou o encontro de saberes, interrompendo descobertas científicas capazes de modificar os homens como aconteceu nos fins da Idade Média, com o surgimento de uma nova consciência social. Parece que esse espírito vem negando às bibliotecas seu direito de existência, em nome da modernidade, muitas vezes utópica, sobretudo em comunidades de baixa renda, propiciando um eterno desencontro de saberes.
Ao nosso ver, atualmente esse encontro entre biblioteca e leitor, autor/leitor tem sido prorrogado, em virtude de dois fatores básicos: o primeiro, é o descaso porque passam as nossas bibliotecas assemelhando-se na prática a verdadeiros oráculos (depósitos) de lixos. O segundo, é a promessa de substituição das tradicionais bibliotecas pelas chamadas bibliotecas virtuais, confundidas erroneamente com banco de dados ou o contrário. Isto se torna paradoxal, sobretudo, numa sociedade marginalizada pela falta de acesso à Educação e à Informação. Neste transitar constante entre o desejável e o possível, deixam sucumbir as "velhas novas" bibliotecas, transformando em cinzas nossa própria história, atrasando o encontro de "personalidades famosas ou anônimas, consagradas e/ou desconhecidas, mas todas igualmente grandiosas" (Rosa Beloto). É lamentável.